O Frio, a sopa e o vinho

Por Maurício Azevedo Ferreira – Apaixonado por vinhos

Canal do Youtube: Apaixonado por Vinhos

Na última terça-feira fui cedo ao supermercado. Concluída a compra, passei pelo setor de vinhos, como de costume. Apenas olhava os rótulos quando ouvi nas minhas costas uma voz que denunciava a idade: “Esse meu aluno saiu melhor que a encomenda.” Virei-me e foi uma grata surpresa. Era Dona Leide, minha professora do curso primário. Sempre que os netos, todos maiores, demoravam para visitá-la em São Paulo, ela vinha para a terrinha. Lecionou por pouco tempo no interior. Cursou faculdade de filosofia na USP. Graduou-se com distinção. Fez mestrado, doutorado, cursos no exterior e aposentou-se como titular da cadeira de Filosofia Clássica na própria USP. Os dois filhos, que não nasceram aqui, abraçaram este rincão ainda jovens quando do falecimento do avô materno e assumiram a administração das fazendas.

Diante dos braços abertos, respondi com um demorado abraço e ouvi no pé do ouvido: “Leio toda semana sua coluna. É ótima! Não espero o jornal chegar pelo correio, acesso o Debate News. Amo vinho, embora não entenda muito. Mas tenho as minhas preferências.” Nem consegui agradecer o elogio, pois aprendi cedo as consequências de se interromper a Dona Leide. Ela revelou os planos: “Está chegando uma frente fria neste final de semana e vou fazer um festival de sopas para a família. Você me indica uns vinhos para combinar?”

“Claro, professora, diga quais os ingredientes de cada caldo”. Em tom enérgico, mas sem perder a cordialidade, ela me repreendeu: “Caldo não! Caldo é água rala temperada que se usa para fazer alguns pratos. Na sopa, os ingredientes são cozidos todos juntos, legumes, carne, etc. Já o creme, pode ser batido no ‘mixer’ e tem mais textura.” Sorri, indicando que havia aprendido algo novo. Então ela começou: “Um dos netos fez a opção de se tornar vegano e, especialmente para ele, faço um creme de cogumelo e alho-poró. Na receita também vai cenoura, cebola, salsão e azeite”. De pronto respondi: “Para cogumelos, a melhor harmonização é um Pinot Noir, um vinho delicado que pode apresentar, além de aroma de frutas vermelhas, notas terrosas. Pode ser um da América do Sul.” Surpresa, disse: “Pinot Noir? Nunca pensei nessa combinação. Olha que já provei ótimos da Borgonha, quando visitei a França. Inclusive, alguns mais velhos tinham aroma de cogumelo. Muito interessante!”

Nós, ali, em pé, junto às prateleiras de vinhos, e a professora já engatou outra receita: “Uma das minhas noras adora sopa de legumes com carne. Qual a dica?” Sem pestanejar respondi: “O sabor que mais se destaca nesta sopa é a carne, que geralmente é magra. Seja sopa, ou ensopado de carne com legumes, para mim, a melhor opção é um Merlot, por apresentar taninos e acidez de média intensidade. Escolha um nacional do Vale dos Vinhedos-RS, onde esta casta se adaptou muito bem.”

Com um largo sorriso de aprovação e sem se preocupar com algumas senhoras que se aproximaram para ouvir a conversa, Dona Leide prosseguiu: “Meu caçula adora a sopa do pai, caldo verde, que embora os portugueses chamam de caldo, na verdade é uma sopa ou um creme, dependendo da textura final. Meu caldo verde é o tradicional, aprendi com minha sogra, que veio do norte de Portugal. Vai batata, alho, azeite e muita linguiça portuguesa, além da couve, que coloco só no finalzinho e ela fica ao dente, quase crocante. Este conselho foi fácil: “O mais comum é casar o caldo verde com um vinho português, preferencialmente da região do Dão, que possuem boa acidez e são amigáveis.” Com ar de desapontamento, a professora pediu: “Mas eu gostaria, ao menos, de um vinho branco. Prá já! Respondi. “Quando a senhora esteve na Alemanha, com certeza comeu muita carne de porco, “Wurst” (linguiça, salsicha, etc.) e “Eisbein Gekocht” (Joelho de Porco Cozido). Se lembra do principal vinho para o acompanhamento?” “Riesling”, respondeu ela, quase sem pensar. “Então, seu caldo verde, com muita linguiça portuguesa, também harmoniza com Riesling”.

Recebi outro carinhoso abraço como agradecimento e, feliz da vida, a minha professora se encaminhou para o caixa com todos os ingredientes necessários e com duas garrafas de cada vinho indicado.

No que resta deste inverno, escolha sopa ou caldo e um vinho gostoso para acompanhar.

Saúde e um forte abraço.


MAURÍCIO FERREIRA: APAIXONADO POR VINHOS
Por Mauricio Azevedo Ferreira – Promotor de Justiça aposentado que transformou uma paixão em atividade, dedicando-se ao ensino sobre vinhos. É responsável pelo conteúdo da página no Facebook, do perfil no Instagram e do canal do YouTube Apaixonado por Vinhos, além de ministrar cursos. Certificado pela WSET — Wine & Spirit Education Trust, nível 3, e FWS — French Wine Scholar.

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